Guia completo para a classificação de agentes químicos

Guia completo para a classificação de agentes químicos
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Entender a classificação de agentes químicos é fundamental para que os técnicos, os engenheiros de Segurança do Trabalho e os higienistas ocupacionais desenvolvam meios para eliminar ou mitigar os danos que essas substâncias podem causar nos funcionários.

Dependendo da concentração, da classificação e do tempo de exposição do trabalhador a esses agentes, podem surgir variados sintomas. Eles vão de pequenos incômodos ao desenvolvimento de doenças graves que podem provocar a morte, como o câncer, ou a incapacitação do indivíduo.

Atualmente com a evolução das tecnologias de gestão de Segurança do Trabalho, das indústrias de equipamentos de segurança individuais e coletivos e dos laboratórios de análises químicas para a identificação das substâncias, é possível atingir um elevado grau de segurança e de proteção para o quadro de pessoal.

Sabendo a importância do conhecimento da classificação dos agentes químicos nos ambientes laborais, elaboramos este artigo para que ele funcione como um guia completo a fim de auxiliar os gestores de segurança em suas rotinas. Esperamos que este material agregue valor ao seu trabalho. Boa leitura!

O que são agentes químicos?

Segundo a NR-9, agentes químicos são substâncias, compostos ou produtos que possam penetrar no organismo pela via respiratória, nas formas de poeiras, fumos, névoas, neblinas, gases ou vapores, ou que pela natureza da atividade de exposição, possam ter contato ou ser absorvidos pelo organismo através da pele ou por ingestão.

A Norma Regulamentadora n.º 9 (NR-9) está relacionada ao Programa de Prevenção de Riscos Ambientais ou PPRA. Ela é parte da legislação que estabelece as iniciativas e a obrigatoriedade dos empregadores públicos ou privados quanto ao zelo pela integridade da saúde e da segurança dos trabalhadores por eles contratados.

O que são riscos químicos?

“Riscos químicos” constituem a classificação dada para os danos que determinados compostos podem provocar nos indivíduos com a prática das suas atividades durante as suas jornadas nos seus ambientes de trabalho. Esses riscos, dependendo do grau de agressividade, podem gerar danos para a vida e para a saúde dos trabalhadores, bem como para as suas famílias, para os seus descendentes, para o meio ambiente e para a população circunvizinha do empreendimento.

Como é feita a classificação de agentes químicos?

A classificação dos agentes químicos, de certa maneira, é até fácil de entender e de assimilar porque eles são separados conforme os seus estados físicos (gasoso, líquido e sólido). Veja mais a seguir.

Gasosos

São os agentes químicos que se encontram na sua forma natural de gás. Apresentam baixos valores de densidade e de viscosidade e a capacidade de compressão é alta. Eles expandem facilmente e não apresentam rigidez.

Os vapores, por exemplo, são enquadrados nessa classificação, no entanto, eles se diferem dos gases, pois, quando são colocados em pressão, se liquefazem. Isso não acontece com um gás, já que ele mantém a sua característica original.

O oxigênio, o nitrogênio, o dióxido de carbono e o propano são exemplos de gases. Se colocarmos a água sob pressão, teremos o vapor de água e o mesmo acontecerá com outros líquidos.

Líquidos

Os agentes químicos líquidos já são definidos pelo próprio nome, o que impede qualquer confusão. Os derivados de petróleo e os ácidos são os mais presentes nas empresas. Querosene, gasolina e ácido sulfúrico são bons exemplos.

Esses agentes podem ser dispersados de duas formas. As névoas podem ocorrer quando o trabalhador aciona uma pistola de tinta e é provocada a ruptura mecânica do líquido. A outra maneira de dispersão se dá com a neblina que é formada pela suspensão da substância por meio da condensação do vapor.

Sólidos

Os agentes químicos sólidos, assim como os gasosos, exigem uma explicação mais detalhada, pois são divididos em três categorias. Para entendê-los melhor, veja quais são elas a seguir.

Poeiras

As poeiras são partículas oriundas de trabalhos nos quais ocorrem a quebra, o atrito, a movimentação e a manipulação de materiais sólidos, como rochas, madeiras ou até mesmo vegetais — por exemplo, o algodão e a cana-de-açúcar.

Fumos

Os fumos são partículas liberadas por meio de atividades em que ocorrem a soldagem ou a fundição. Eles são formados pelos efeitos da oxidação/condensação e emitidos por vapores produzidos pelos materiais manipulados.

Fibras

As fibras são partículas definidas pela Norma de Higiene Ocupacional n.º 04 (NHO-04) e podem ser entendidas como um longo e fino filamento que se desprende de um material. Elas podem ser encontradas nas formas sintéticas ou naturais. Quando os agentes químicos são dispersos no ar, tanto no estado líquido quanto no sólido, eles recebem a denominação de aerodispersoides.

Quais são os efeitos causados pelos agentes químicos?

Os efeitos causados pelos acidentes provocados pelos agentes químicos oferecem apenas resultados negativos para o trabalhador. Saiba agora quais são eles e os seus principais sintomas.

Efeitos asfixiantes

Os agentes asfixiantes impedem o sangue de transportar o oxigênio para as células. Assim, impossibilitam a respiração do trabalhador e as suas consequências podem surgir como tonturas, dores de cabeça, perda da consciência e morte. Eles são expelidos nas descargas de motores e com a explosão de equipamentos que usam derivados fósseis, como o petróleo.

Efeitos anestésicos

Atuam no sistema nervoso central e provocam uma confusão mental semelhante aos narcóticos, com delírios, tonturas e dores de cabeça. Se ingeridos, causam danos nos rins e no fígado e podem levar à morte. Esses agentes podem ser encontrados em determinados produtos, como os solventes de tintas e vernizes produzidos com cetonas.

Efeitos tóxicos

Normalmente, os seus efeitos são provocados pela exposição às substâncias químicas. Eles podem ser inalados, ingeridos ou absorvidos pela pele e provocam danos em diversos órgãos e nos variados sistemas do organismo dos trabalhadores, como o nervoso, o circulatório e o reprodutor, atingindo também os órgãos, como rins, fígado e pele.

Os próprios toxicologistas acreditam que ainda não conhecem todos os efeitos que as substâncias químicas podem provocar no organismo humano. No sistema nervoso, o chumbo, o mercúrio e o monóxido de carbono afetam os neurônios e, no reprodutor, eles afetam tanto a mãe quanto o feto, podendo provocar, nesse último caso, alterações genéticas, como malformação de órgãos e de membros ou dificuldades de aprendizado e debilidade mental.

Efeitos cancerígenos

A exposição dos trabalhadores aos agentes químicos, seja por inalação, seja por absorção pela pele, seja pela ingestão acidental, pode alterar o funcionamento normal das células. Além disso, colabora para o seu crescimento desordenado, podendo resultar em tumores malignos.

Efeitos inflamáveis e corrosivos

Determinadas associações de substâncias químicas podem provocar queimaduras na pele ou a corrosão de camadas tão profundas do tecido epitelial que chegam a atingir os ossos.

Como proteger o trabalhador dos agentes químicos?

A proteção dos trabalhadores dos danosos efeitos provocados pelos acidentes com substâncias químicas se inicia por meio do conhecimento do ambiente de trabalho, das atividades a serem executadas e do atendimento às recomendações da legislação vigente.

Além disso, os gestores de Segurança do Trabalho devem conscientizar os empreendedores e os colaboradores de que as medidas de proteção dos funcionários devem se estender para o entorno dos empreendimentos e de que as más ações prejudicam também a imagem da empresa.

Para atender às normas vigentes, com a elaboração do PPRA de maneira eficiente, recomenda-se que esse programa se inicie por um processo formado por dois tipos de avaliação do ambiente de trabalho. Saiba, a seguir, quais são elas.

Avaliação qualitativa

Podemos considerar que a avaliação qualitativa é mais superficial, de modo que, normalmente, os dados dos agentes químicos já são conhecidos com a análise preliminar. Nesse caso, a sua função é a de começar a preparar as medidas preventivas de segurança com base na qualidade das informações disponíveis.

Avaliação quantitativa

Nessa avaliação, devem ser feitos os ensaios laboratoriais conforme as exigências da legislação. Aqui, é necessário obter dados da dosagem dos agentes presentes no ambiente para verificar se estão dentro dos limites de tolerância permitidos. Normalmente, são contratadas empresas especializadas para essas medições.

Após a identificação dos agentes químicos, devem ser feitos mapeamentos dos ambientes para demarcar, por meio de simbologia própria, os locais que podem provocar riscos à segurança, tanto para os trabalhadores efetivos quanto para o público flutuante, como clientes e fornecedores. Estabelecido o mapa de riscos, é hora de preparar o ambiente para que ele se torne seguro.

Nesse momento, devem ser avaliados quais são os equipamentos de proteção coletiva (EPC) indicados para os locais. Esses equipamentos podem ser entendidos como barreiras físicas para a contenção dos agentes químicos. Exemplos são as placas indicativas, os chuveiros lava-olhos, os exaustores, as chaminés, o kit de primeiros socorros, as capelas químicas, entre outros.

Quando os EPCs não representam medidas suficientes para oferecer a proteção adequada para os trabalhadores, devem ser disponibilizados os equipamentos de proteção individuais (EPIs). Para essa escolha, é necessário o conhecimento de cada agente químico que pode estar presente nos postos de trabalho.

A partir disso, são criados programas protetivos. O PPR, por exemplo, é o Programa de Proteção Respiratória, em que são definidos as máscaras e os respiradores demandados.

Para determinar os equipamentos de proteção individual para cada posto de trabalho, é fundamental conhecer os limites de tolerância à exposição a cada agente químico. No entanto, os EPIs mais utilizados para esses casos são:

  • luvas;
  • máscaras ou respiradores;
  • aventais, muito usados pelos soldadores, inclusive;
  • uniformes;
  • botas ou botinas;
  • óculos;
  • capacetes;
  • loções protetoras para a pele, a fim de evitar que o tecido absorva as substâncias químicas.

Além disso, no caso das substâncias químicas, especificamente, os cuidados já devem ser iniciados no momento do recebimento, pois esse é o primeiro contato de manipulação dos trabalhadores com esses agentes. Independentemente do estado físico dessas substâncias — sólido, líquido ou gasoso —, é necessário que a equipe de recebimento siga passos básicos, como a identificação, o registro, o controle da entrada e a acomodação nos locais adequados para cada agente químico.

Feitos esses procedimentos, é fundamental que os gestores eduquem e conscientizem rotineiramente todos os colaboradores da empresa por meio de treinamentos e palestras. Isso serve tanto para os que já estão há mais tempo na organização quanto para os novatos.

Isso porque os veteranos, com o passar do tempo, vão ganhando confiança em suas atividades e costumam negligenciar alguns procedimentos de segurança. Exatamente por isso, é necessário que haja, além dos treinamentos, inspeções de rotina, não com a intenção de punir, mas, sim, com o intuito de educar.

O que é limite de tolerância?

Sempre que lidamos com agentes nocivos à saúde dos trabalhadores, é comum ouvirmos o termo “limite de tolerância (LT)”. Para a sua definição, vamos recorrer à Norma Regulamentadora n.º 15 (NR-15) referente às atividades e às operações insalubres.

Segundo o item 15.1.5 da NR-15, para fins dessa norma, o limite de tolerância é a concentração ou a intensidade máxima, ou mínima, relacionada com a natureza e com o tempo de exposição ao agente, de modo que não sejam causados danos à saúde do trabalhador durante a sua vida laboral. Veja em quais anexos da norma são citados os agentes químicos:

  • Anexo XI: agentes químicos cuja insalubridade é caracterizada pelo limite de tolerância e inspeção no local de trabalho;
  • Anexo XII: limites de tolerância para poeiras minerais;
  • Anexo XIII: agentes químicos;
  • Anexo XIII A: benzeno.

Devemos ressaltar que os valores desses limites são obtidos por meio de testes laboratoriais e, em alguns casos, podem generalizar determinadas situações. Sendo assim, o profissional responsável pelo plano de segurança tem a liberdade para estabelecer medidas que amplifiquem o nível de proteção para os trabalhadores.

Para obter uma segurança maior para o quadro de pessoal, o gestor de Segurança do Trabalho pode recorrer a outros órgãos, como a American Conference of Governmental Industrial Hygienists (ACGIH), ou Conferência Americana de Higienistas Industriais Governamentais.

Quais as empresas que precisam da classificação de agentes químicos?

Todas as empresas que, na elaboração do Programa de Proteção de Riscos Ambientais (PPRA), identificarem a presença de quaisquer das substâncias mencionadas neste artigo precisam da classificação de agentes químicos.

Somente após essa classificação e o conhecimento dos limites de tolerância permitidos pela legislação, os gestores de segurança poderão iniciar a elaboração dos planos de proteção e as tomadas de decisão para o estabelecimento das medidas protetivas.

Neste conteúdo, apresentamos motivos suficientes para que os profissionais encarregados da gestão de segurança das empresas entendam as diferentes classificações de agentes químicos. Esse conhecimento facilita a compreensão de laudos laboratoriais e a tomada de decisões para as ações de proteção dos trabalhadores, enquanto o desconhecimento e a omissão de práticas protetivas os prejudicam, bem como atingem as suas famílias e a sociedade em geral.

Este guia sobre a classificação de agentes químicos foi útil? Caso tenha ficado alguma dúvida, faça contato conosco. Teremos prazer em ouvi-lo.

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